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O caminho distinto


Num tempo antigo, um jovem garoto procurava seu mestre para buscar sabedoria.

Havia completado seus dezoito anos de vida. Queria se tornar um sábio. Os pais, no entanto, queriam que o filho entrasse para o magistrado e servisse diretamente ao rei da época. Ele deveria se casar, ter filhos, possuir mais de uma esposa e dar continuidade à linhagem da família. 

Mas o jovem discípulo tinha alma de eremita. E se via como um escritor.

Desde cedo se inclinou ao silêncio, ao autoconhecimento e à escrita. Tinha extremo carinho por livros, gostava de subir as montanhas e recitar poemas. Apreciar o rio e ouvir o balançar das árvores quando o vento ficava mais forte. Se dedicava a contemplar coisas vivas e, com grande esforço, decifrá-las. Agora, havia se tornado homem por idade e precisava escolher seu caminho.

Ao escolher servir o rei, passaria seus dias escrevendo leis e decretos. Seria um escritor, mas não usaria a tinta para servir a si próprio. 

Como um sábio, seria como seu mestre. Abdicaria dos prazeres da carne para seguir os valores do espírito, porém seria livre. Contanto, faltava coragem. Coragem para escolher o caminho que achava ser o certo. E, com a mente atribulada, o discípulo encontrou seu mestre ao pé de um salgueiro. 

— Mestre, estou aqui. — O mestre estava sentado e mantinha seus olhos fechados. — Mestre, meus pais ordenam que eu volte. Querem que eu me case e sirva o rei. Acreditam que meus dons com a escrita irão trazer grandeza à nossa família. E em parte, quero isso também. Mas sei que não nasci para viver a vida que eles desejam. Meu coração está dividido. Mestre, me ajude. Por que meu caminho está tão turbulento? 

— Tolo é o escritor que chora por sua própria história — disse o sábio, sem mudar sua postura.

— Mestre, quero saber qual caminho seguir. Os sonhos de minha família ou os meus?

— Leviano é o escritor que busca na própria história um sonho inalcançável. Esperançoso é o escritor que tem na sua própria história uma fonte inesgotável de magia. — Então, o mestre abriu os olhos e encarou o jovem. — E o escritor esperto, meu caro? Provavelmente é aquele capaz de entender isso: a sensação de carregar um sonho nas costas não é tão diferente da sensação de ter o sonho em mãos. 

— Meu momento chegou, mestre.

— Sim. Quando o momento de autorreflexão chega — o escritor é capaz de perceber que, na realidade, ele nunca esteve preparado para viver o sonho.

— Mas, mestre…

— O que ele tinha em mente não passava de fantasia. E a imaginação na qual o escritor se baseava, onde o escritor havia criado morada, sequer existia. Não era imaginação, não era criatividade. Era ilusão. Era desejo de viver um caminho distinto. Uma vida diferente de uma realidade tão sombria. 

— O que eu desejo? Mestre, eu sei o que quero. E quanto aos outros? O que irão dizer?

O mestre ficou de pé e convidou seu discípulo a caminhar. Continuou:

— O escritor deseja um caminho distinto, mas está preso na vida alternativa. Porque o escritor que cria para os outros já vive uma vida alternativa. O escritor que não escreve para descobrir o que quer, para descobrir o que pensa, o que teme, o que vê e o que significa estar vivo — este escritor está longe do caminho distinto.

— Estou preso, mestre? O que me aguarda?

— O que o aguarda na vida alternativa? Ideias que não são suas. Que foram rebaixadas e quase reduzidas a nada. Que não nascem da paixão, mas nascem do desejo e do desespero. Na vida alternativa, não há um incrível estranho. Lá, a ordem é caótica e está sempre de acordo com os ideais de terceiros. Não há sonhos genuínos, apenas sonhos cedidos. Carentes de qualquer legitimidade, fidelidade ou honestidade. Na vida alternativa, há somente mãos atadas incapazes de alcançarem a liberdade. A criatividade é considerada um proveito e o excêntrico é postergado. Meu caro, o caminho distinto é o ideal porque, no caminho distinto, o escritor usa sua sinceridade para criar. O escritor acolhe as próprias dores e fraquezas. Ele se apega ao que é comum apenas para transformá-lo em algo raro. Criar-se no belo e no verdadeiro se torna a missão primordial. Da beleza, da dor, do que é justo e do que é injusto. Do que nasce da alma e se move pela carne. 

— Como posso saber que estou nesse caminho? Como posso ser fiel mesmo em situações que não estão no meu controle?

— No caminho distinto, a gentileza faz permanência, pois dela o singular provém. E, apesar da grande pequenez, as amarras são devidas e justificadas, e delas o escritor poderá se libertar — são inatas, mas não eternas. Isso depende apenas do escritor e das escolhas que ele fez para si próprio. Caminhos não são lugares, mas princípios. E também, os sentimentos — poder sentir a noite e a lua e ditar sobre o vento. Seguir o ritmo do rio e compreender a língua de uma força imparável. Ser habilidoso em escrever diretamente do âmago, da graça e do espírito. Sem temer. Ou vacilar. Sem medo de algo ou de alguém. E do novo; jamais. Estar no intrínseco; no pertencente; apenas no seu caminho distinto. Em qualquer que escolha habitar. 

— Mestre…

— Sempre será o escritor que escolheu ser. Isso ninguém irá mudar. O seu caminho é um só e acredito que você já se encontra nele. Percorra-o com sabedoria, meu jovem.

— Sim, mestre.



Há alguns anos, encontrei alguém que me disse de maneira singela:

“Se você tem um sonho, nunca desista dele. Apenas se agarre a esse sonho com força e continue se esforçando para alcançá-lo.”

Escrevi na capa de algum dos meus inúmeros cadernos e me peguei pensando nisso esses dias. E enquanto eu pensava nessa frase e na pessoa que me passou essa mensagem, “o caminho distinto” me escapuliu.

Bom, espero que essa semana tenha um toque de loucura, mas seja cheia de graça.


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