Aether Candelions: Divina Saga
Webnovel | Gênero: Fantasia | Classificação +14.
Contém violência, palavras de baixo calão, assassinato.
Capítulo 1 - Pegos na Estrada Nº6
Atrás da lua, onde a luz nasce
e a escuridão se desfaz.
Aquela tarde deveria ter sido como qualquer outra para Damian Montgomery.
Ele fechou o caderno com mais força do que pretendia. Estava em frente ao aeroporto há quarenta minutos. Boné, óculos escuros, o casaco velho que usava quando não queria ser reconhecido. Preferia o calor do lado de fora a enfrentar a multidão lá dentro.
O relógio no pulso marcava 16h12. Elio estava atrasado.
Não conseguia parar de pensar no comentário que leu naquela manhã, em um de seus vídeos: As histórias estão ficando repetitivas.
— Repetitivas? — murmurou.
Abriu o caderno outra vez e rabiscou: O protagonista vive sua vida comum. Então algo tenebroso aparece — metade homem, metade demônio. Quer matar o protagonista. Por quê? O que ele fez de errado?
Parou. Leu. Fechou o caderno de novo. Não sabia como continuar.
— Dante!
Uma cabeça dourada se movia entre a multidão. Damian guardou o caderno no bolso. Elio vinha caminhando como sempre — descolado demais para o próprio bem, jaqueta jeans fora de época, mala arrastando no asfalto, rindo antes mesmo de chegar perto.
Por que ele sempre faz isso?
O abraço veio sem aviso. Apertado demais.
— Sentiu tanta falta assim? — murmurou Damian, sem reagir. — As pessoas estão olhando.
— Ficou tão alto, Dante. — Elio recuou, os olhos varrendo o irmão. — E esses músculos? Desde quando?
— Vamos logo — resmungou Damian. — Vamos pegar um táxi.
Andaram alguns metros. Elio ergueu o braço para um veículo que se aproximava.
— Estou com fome. Por que não paramos para tomar um café? Você deve conhecer as melhores cafeterias daqui.
Damian já sacava o celular quando o ouviu. Prestes a negar, foi interrompido:
— Dante… seu irmão está faminto. Vamos parar rapidinho, hein?
Ele suspirou.
— Tem bastante comida em casa. Não é melhor chegarmos logo?
— Tudo bem — cedeu Elio, vendo o táxi encostar. — Você cozinha para mim, então?
Damian piscou, resignado. Entrou no carro após o irmão e informou ao taxista o endereço de um café próximo.
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A imagem de Elio devorando com fervor o sanduíche de ovo não era divertida. Damian queria perguntar se na Inglaterra não havia algo assim, mas não o fez. Não queria adentrar uma nova conversa.
一 Não vai comer nada? — Ouviu o irmão falar de boca cheia.
一 Até queria, mas não consigo. — Damian disse lendo o que havia escrito no caderno. Elio limpou a boca com um guardanapo para depois dizer:
一 Como anda seu trabalho na internet?
一 Ah, bem. Eu acho — respondeu sem entusiasmo. Estava pensando em sua nova história. — Consigo me sustentar.
Elio sorriu ao ouvir Damian.
一 Você é mesmo um adulto. Nossos avós fizeram um ótimo trabalho. — Damian franziu o cenho ao ouvir aquelas palavras, tirando o olho do caderno.
一 Do nada isso?
一 E por que não? Vamos visitá-los, com certeza. Sinto falta deles.
一 É um dia inteiro de viagem. Eles estão bem, sempre mando dinheiro — falou balançando a cabeça. — Terminou?
一 Sim, claro. — Elio tomou o resto de sua bebida em um gole só e ficou de pé. — Vou pagar.
Damian assistiu o irmão se afastar. Voltou ao caderno.
O protagonista vive sua vida comum ao ser surpreendido por um ser de outro mundo.
Respirou fundo. Era fim de tarde, a cafeteria estava tranquila e uma música ambiente quebrava as vozes das pessoas. Queria ir para casa, quem sabe ler um pouco, pensar em algo útil para a história.
O garoto foi arrancado do próprio mundo pela presença do irmão.
一 Afinal, o que tem neste caderno de tão bom? — Elio perguntou, guardando a carteira no bolso da calça. O irmão mais velho tinha olhos doces quando direcionados a Damian.
一 Não sei se entenderia. — Damian inclinou o torso guardando o caderninho no bolso.
一 O que está querendo dizer com isso? Está duvidando da minha capacidade? — Soltou enquanto agarrava a alça de sua mala. — Não está sendo muito malvado com o seu irmão que acabou de chegar?
一 Busquei você no aeroporto. Fui bondoso o suficiente por um ano — pronunciou ficando de pé. — Pagou?
— Sim — respondeu Elio. — Desde quando ficou tão amargo?
Os dois caminharam lado a lado em direção à saída. Damian revirava os olhos por trás dos óculos escuros.
— Depois de ficar fora tanto tempo, não é presunçoso da sua parte afirmar que eu sou uma pessoa amarga?
— Dante! — Elio tentou alertá-lo.
— Urgh! — Damian deu um passo para trás, pego de surpresa. O líquido chegou primeiro — rosa, com um cheiro forte — encharcando o casaco, o bolso, o caderno. — Droga!
Damian olhou para baixo. Depois para cima. Uma garçonete estava à sua frente, segurando uma bandeja vazia. Com a outra mão, ainda segurava o pulso de uma criança.
— Tudo bem? — Elio apareceu ao lado, preocupado.
— Claro que não! Olha o meu caderno! — reclamou Damian, retirando o caderno do bolso. As páginas escorriam.
— Eu não estava falando com você — corrigiu Elio, franzindo a testa.
Damian lançou um olhar para o irmão. Depois para a garçonete. A garota estava abaixada conversando com a criança. Não demorou até que uma mulher surgisse, pedindo desculpas pelo descuido do filho. Assim que se afastaram, a garçonete voltou sua atenção para os irmãos.
— Desculpem-me. — Sua voz era firme, mas singela. — Segurei a criança por um momento para evitar que ela caísse, mas vacilei com a bandeja. Posso oferecer algo para compensar?
— Não tem problema... — começou Elio, mas foi interrompido.
— Oferecer algo? — Damian cortou, a voz subindo um tom. — Destruiu uma coisa minha.
A garçonete piscou. Absorveu. Limpou a garganta.
— Sinto muito. Mesmo. Não há nada que eu possa fazer?
— Deixa para lá. Já era mesmo. — Damian deu um passo brusco em direção à lixeira próxima e jogou o caderno destruído com força desnecessária.
— Dante! — Elio tentou mais uma vez intervir, mas foi ignorado.
A garçonete observou tudo com o semblante culpado.
— Sinto muito novamente. Não foi minha intenção... — disse ela, trocando um olhar breve com Elio.
— Vamos embora. — Damian deu as costas, deixando os dois para trás. Elio hesitou.
— Desculpe pelo meu irmão, ele não costuma ser assim. Eu acho.
A garçonete não respondeu. Limitou-se a encará-lo. Desconcertado, Elio desviou o rosto. Foi incapaz de interpretar a expressão vinda da garota. Por fim, seguiu Damian, sentindo o peso do olhar dela até a porta.
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No banco de trás do táxi, nenhum dos dois falou. O cheiro da bebida ainda impregnava o casaco de Damian. Ele abriu o vidro. O ar da tarde entrou morno e pouco útil.
Ele não se virou para o irmão mais velho. Não precisava — sabia que Elio estava olhando para ele. Conseguia sentir aquilo. Sempre conseguiu.
A culpa é sua, ele quis dizer. Você que foi embora.
Mas não disse. Ficou olhando a estrada e deixou o silêncio fazer o trabalho.
Damian tinha uma personalidade afiada. Seu jeito defensivo era como uma parede de concreto. Quando crianças, era diferente. Havia doçura nele — e Elio o elogiava por isso.
— Por que agiu daquela maneira? — perguntou Elio, tentando parecer neutro, mas o incômodo escapava em seus ombros tensos. — Dante, estou falando com você.
— Que maneira? — Damian sequer desviou os olhos da estrada. — Acredite, eu estava me controlando.
— Jogou o caderno fora! Não percebeu que a garota segurou a criança para evitar algo pior?
— Ah... então é com ela que está preocupado? — Virou o rosto, sua expressão emburrada. — Ou com o meu caderno? Porque, até onde sei, eu fui o único que perdeu alguma coisa.
Elio arqueou as sobrancelhas.
— Sei que não se importa — Damian continuou. — Mas o caderno tinha tudo. Ideias. Não era apenas papel. Era meu trabalho. E você agiu como se eu estivesse fazendo um show.
— Jogou fora para fazer uma cena — rebateu Elio. — Poderia ter salvo, sim. Está agindo como um...
Damian o interrompeu.
— Estou agindo como o quê? Quer mesmo falar disso agora, depois de desaparecer por anos? Volta como se nada tivesse acontecido, como se ainda tivesse algum direito de opinar sobre quem eu me tornei?
O silêncio caiu entre eles. Elio fitou para os próprios sapatos, como se segurasse algo que ameaçava escapar. Damian murmurou um palavrão, tirou os óculos escuros e os enfiou no bolso do casaco.
— Não vamos insistir nisso. Você nem conhece aquela garota, está tomando as dores dela por quê? Preciso de um tempo para trabalhar. Podemos comer juntos depois.
Elio ignorou. A voz saiu baixa, mas trêmula:
— A culpa é minha.
Damian o espiou de lado, confuso.
— O quê?
— Achei que estava fazendo o certo. Achei que, indo embora, te deixaria num caminho melhor. Eu não devia ter te abandonado aqui.
— Do que está falando? — Damian cerrou os punhos, tentando conter o tremor. — Nunca me senti abandonado. Nunca pedi sua ajuda!
O táxi desacelerou numa curva. O rádio preenchia o silêncio com uma música suave demais para o momento. Do lado de fora, o céu desabava: nuvens escuras se aglomeravam, e uma névoa densa cobria o asfalto como se a estrada não terminasse em lugar nenhum.
O motorista inclinou o corpo para frente.
— Que diabos é aquilo?
Damian olhou pela janela. Sentiu alguma coisa — o tipo de sensação que aparecia quando um dia ruim ainda não tinha terminado.
Elio estava ao seu lado, calado, e aquilo era insuportável. Damian ia falar. Ia dizer algo — qualquer coisa.
— Dante, precisamos conversar.
Não houve tempo.
— Tem alguma coisa na estrada! — gritou o motorista.
O para-brisa se estilhaçou com o impacto. O carro sacudiu, perdeu o controle, bateu contra outro veículo e girou no asfalto. Pneus gritaram. Buzinas estouraram ao redor. Os dois irmãos foram sacudidos, presos pelos cintos.
O táxi capotou.
Foi parar no meio-fio, destruído, com a névoa engolindo tudo ao redor.
E então: silêncio.
Capítulo 2 - A longa noite começa
Sair de um carro capotado não seria nada fácil. Foi o que pensou ao abrir os olhos, percebendo o que havia acontecido — e que, ainda assim, estava vivo.
Conseguiu avistar o irmão mais velho que, com esforço, retirou o taxista desacordado do banco da frente. Elio estava do lado de fora, ferido. Um rastro de sangue escorria pelo pescoço dele.
Droga... eu também? A cabeça latejava para confirmar.
— Dante! Você está bem? Dante! — A cabeça de Elio surgiu na janela.
— Não precisa gritar, estou bem — respondeu Damian, tentando se virar no banco de trás. Seu corpo longo parecia ainda mais inadequado naquela posição. Mesmo de cinto, agora sabia como era ser jogado dentro de um liquidificador.
— Acha que consegue sair? — perguntou Elio, aflito demais.
— Não é como se eu quisesse ficar aqui por mais tempo. Está bem desconfortável.
— Vem. Me dá a sua mão.
Damian obedeceu e foi puxado para fora do veículo. Agradeceu mentalmente por os vidros estarem abertos.
Ficou de pé com a ajuda do irmão. Ao ver o motorista desmaiado e o caos ao redor, sentiu-se exaurido. Os ouvidos apitavam — uma tortura interna.
— O que foi que aconteceu aqui? — perguntou alto, esfregando os olhos. — Tenho quase certeza de que algo atingiu o capô antes de capotarmos.
As pessoas começaram a se dispersar. Damian estranhou o silêncio súbito de Elio, mas logo se distraiu com a confusão crescente.
Não apenas os envolvidos no acidente, mas outros também abandonavam seus carros, como se fugissem de algo. A maioria corria, assustada. Alguns tentaram filmar com os celulares, mas logo desistiram.
— O que está vindo ali? — Ignorando a dor, Damian deu um passo à frente.
— Damian! — A voz de Elio irrompeu como um trovão nos ouvidos dele. O irmão o segurou pelos ombros, firme. — Precisa prestar atenção no que vou dizer agora!
— Elio, tem alguma coisa vindo dali. Não sente essa vibração no chão?
— Dante, escuta! — Elio gritou de novo e sacudiu seu corpo com força exagerada. Damian o encarou.
O chão tremeu. Um impacto vibrou no ar. O garoto sentiu como se um terremoto lhe atravessasse os ossos. Elio ainda o segurava, calado — os olhos fixos em algo que Damian não via.
Logo entendeu o motivo.
Primeiro, achara que aquela tarde seria comum. Depois, que o acidente o deixara desnorteado. Agora, os próprios olhos o traíam.
— O que é aquilo...?
Uma criatura se aproximava. Repulsiva. Como saída de um episódio de Midnight Inside.
Não era humana — embora quase parecesse. Alto, com a pele escamosa, lembrava um réptil musculoso. A face era grotesca — os olhos amarelos, o cabelo verde e ralo deixando o crânio quase exposto. Unhas longas e sujas, pés descalços no asfalto. Da cabeça aos pés, parecia uma coisa em decomposição.
Se conseguisse falar, talvez elogiasse a caracterização. Era um cosplay, afinal. Certo?
— Elio, está vendo o que estou vendo? ESTÁ?! — A própria voz o surpreendeu.
— Gostou da surpresa? — disse o ser, com uma voz zombeteira.
Ele falava. E se aproximava. Damian quis responder. Mas a garganta o impediu.
Foi quando Elio o empurrou. Uma força que o lançou metros adiante — mas por um instante, no contato, Damian jurou sentir algo ser colocado no seu bolso. Raspou no asfalto, rolou pela grama.
O mundo girava. Mas a cena adiante o obrigou a focar.
Elio continuava ali. Diante do monstro.
O coração de Damian disparou, pequeno e assustado.
O ser retirou uma longa corrente do próprio cinto. O metal caiu no chão e, como se tivesse vontade própria, voou até o pescoço de Elio, enroscando-se nele.
Uma luz intensa irrompeu. Elio brilhou. E desapareceu.
Antes disso, estendeu o braço em direção ao irmão.
Fuja — ele dissera.
Em resposta, Damian gritou.
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Mesmo que quisesse, não conseguiria. Suas pernas haviam perdido toda a vida.
— O que foi que acabou de acontecer? — murmurou, atordoado. — Aquela coisa... evaporou o meu irmão? Elio?! Cadê você?
Damian não compreendia como o irmão desaparecera diante de seus olhos. Queria crer que nada foi real. Que aquilo era apenas uma brincadeira — uma pegadinha, uma transmissão, talvez um trote televisivo para o FilmTube.
Elio surgiria em instantes, rindo e dizendo: Peguei você. Devia ter visto a sua cara.
A corrente voltou sozinha ao cinto do ser, como um cão obediente. Em seguida, o monstro ergueu uma nova arma. Um machado imenso, curvo como a meia-lua. O cabo de madeira era sulcado por espinhos, como se a própria arma desejasse ferir quem a empunhasse.
Os olhos da criatura encontraram os de Damian.
E com isso, a temperatura do seu corpo despencou.
Não venha.
Nada o protegeria. Nenhum desvio. Nenhum milagre. O ser avançava — e em cada passo, Damian sentia a morte se aproximar.
Que forma patética de morrer. Sempre imaginou que seria atropelado.
Pensou em Elio. Quase não ousava acreditar que o irmão estava morto. Seus olhos queimavam.
— Parado aí!
A voz rompeu o transe. Damian moveu a cabeça devagar. O monstro também. Dois policiais aproximavam-se com as armas erguidas.
É claro — qualquer um os veria como heróis. Mas algo, no fundo do garoto, já sabia: eles não teriam chance.
— Solte o objeto no chão e ponha as mãos na cabeça! — ordenou o primeiro.
A criatura não respondeu. Agachou-se lentamente e pousou a arma no chão. Damian mal sentia o corpo, mas sabia que aquilo era apenas encenação. Nada ia terminar bem.
Foi quando reuniu o que restava de suas forças:
— FUJAM! SAIAM DAQUI, ELE V...
Não concluiu.
O machado voou sozinho — um borrão de aço e fúria. A lâmina mergulhou na garganta do primeiro policial, que tombou com os olhos já vazios de vida.
O segundo policial disparou, mas era tarde. O machado retornou como um bumerangue, traçando o ar até suas costas. Um estalo seco precedeu a queda.
Damian viu tudo. Toda visão do sangue revirou seu estômago. A mente girava em espirais. O mundo ameaçava apagá-lo.
O ser repulsivo chamou a arma de volta com um toque de dedos. O machado voou até sua mão, ainda escorrendo sangue.
— Ah... o cheiro desta terra imunda não é tão ruim quanto imaginei. Que pena ter que partir tão cedo. Adoraria sentir mais disso — balançou a cabeça, rindo com prazer. — É claro, detesto matar sem necessidade. Mas preciso eliminar todo aquele que cruzar meu caminho. Acha isso errado, hein?
Damian engoliu em seco. A garganta ardia. Ainda assim, encontrou coragem para perguntar:
— O que fez com o meu irmão? — A voz vacilou. — O que é você?
A criatura arregalou os olhos com excitação e saltitou no mesmo lugar, como uma criança à beira de um presente.
— Que momento sublime — falou saboreando cada palavra. — Bem diante de mim, o irmãozinho de Elio. Elio, o herói. O salvador. Aquele que devia proteger a todos... e não poderá nem salvar o próprio irmão. — Gargalhou. — E o pobrezinho não sabe de nada. Será que mereço um presente desses?
Damian ignorou tudo. Apenas repetia, cada vez mais desesperado:
— O que você fez com o meu irmão?!
— Nunca vai saber — respondeu o monstro, ainda sorrindo.
Um vento morno soprou, desarrumando os cabelos de Damian. Seu boné sumira em algum momento — assim como o celular. Dos arbustos, ouviam-se apenas os grilos. Nenhuma sirene, nenhum carro, nenhuma testemunha. Era um pesadelo de onde não se podia acordar.
O machado ainda gotejava sangue. E desta vez, a criatura estava perto demais. Não havia mais para onde correr.
Será que devo começar a rezar agora? Ou já é tarde demais?
— Você vai morrer! — bradou a criatura, erguendo o machado sobre a cabeça de Damian. — Vai morrer sem saber de nada!
O garoto fechou os olhos. Nada aconteceu. Esperou a dor, mas ela não veio.
— O quê?!
Não era sua voz. Era a da criatura.
Damian ergueu a cabeça — e entendeu.
Entre ele e o monstro, alguém havia se interposto. O machado não o atingira porque fora impedido.
Uma lança de duas pontas curvas cortou o ar e interceptou o machado no último instante.
O som do impacto ecoou seco, como metal estalando os ossos do mundo.
Damian arregalou os olhos. A boca entreaberta.
— Você...
Capítulo 3 - A garota diante de mim
A figura à sua frente não o olhou.
— Pode nos dar um momento? — disse a garota. Então girou a lança e desferiu um chute no peito da criatura. O corpo adversário foi lançado para longe, e o vento pareceu estremecer com a queda.
Ela se virou para Damian, que continuava no chão, sentado na grama úmida, respirando como se o ar o queimasse por dentro.
— Está bem? — perguntou, ajoelhando-se ao seu lado. Segurava a lança com firmeza. Os olhos varriam seu corpo. — Consegue se mover? Está ferido?
Damian piscou, atordoado.
— É você... a garçonete. — As palavras se dissolveram. — Eu... estou enlouquecendo...
A garota franziu o cenho. Damian a encarava como se ela fosse um delírio. A garçonete ainda vestia o uniforme da cafeteria — manchado de terra, os botões tortos. O cabelo preso, desalinhado. E nas mãos, aquela lança impossível.
— Não parece estar muito ferido — murmurou mais para si. — Cadê o seu irmão?
As pupilas de Damian se agitaram.
— Elio... ele...
— Ele morreu?
— Não! — respondeu convicto, mas ponderou. — Não sei... fomos atacados por... aquilo. Ele prendeu o Elio numa corrente de luz... e ele sumiu. Ele não pode ter morrido. Eu... eu senti...
Ela manteve o silêncio por um momento. O olhar, agora mais sombrio.
— Aquilo que acabei de chutar está tentando matar você — dizia analisando o cenário. — E ele não parece do tipo que desiste fácil.
— Mas por quê?! — A voz dele rompeu num tom desesperado. — Por que ele quer me matar? O que ele fez com o meu irmão?!
A garçonete pareceu hesitar.
— Você não sabe? — E ao ver a expressão dele, confirmou o óbvio. — Pela cor dos olhos... acredito que ele seja um Halvina.
— Um quê?
— Um híbrido. Uma raça antiga. Eles não são como nós. O que restava de humano naquele corpo morreu há muito tempo.
— E ele... ele veio atrás de mim? Por quê?
A garota olhou para Damian como quem encara uma peça fora do tabuleiro.
— Como eu saberia?
Damian abriu a boca. Não encontrou nada para dizer.
Um ruído cortou o campo. O inimigo estava de volta. Tão rápido quanto um animal enfurecido. O machado veio rasgando o vento. Ela se levantou de súbito, firme. O choque foi brutal. Lança contra machado. A garota cambaleou, os pés arrastando pela grama.
— Como ousa?! — rosnou a criatura. — Quem pensa que é para tirar o meu prazer?!
Ela não respondeu.
Aproveitou a instabilidade dele para girar o corpo e empurrá-lo. O machado afundou na terra. Ele tentou se recompor, mas a garota já o esperava.
Uma das pontas da lança subiu rente ao rosto do inimigo, deixando um corte limpo. Sangue grosso e esverdeado escorreu devagar. O monstro tocou o ferimento com os dedos, desacreditado.
A garçonete recuou, assumindo uma postura defensiva.
— Que tal agora eu falar um pouco? — pediu ela, firme. — Quem é você... e o que veio buscar aqui?
Damian, ainda afastado, observava com espanto. Ela era rápida. Ágil. Cada gesto parecia calculado.
Quem é ela...?
— Não entendo, não entendo! — gritou o inimigo, sacudindo a cabeça como um animal encurralado.
A garota estreitou os olhos, estudando seus movimentos.
— Não deveria haver mais ninguém aqui! — continuava o monstro, num crescendo de fúria. — Nenhum deles! NINGUÉM DEVERIA ME IMPEDIR!
Ele a apontou com o machado.
— Você me seguiu?!
— Não se ache tanto — retrucou, indiferente.
Damian ouviu, apreensivo. Não o provoque mais, por favor...
— Você não é um deles, é? — disse o inimigo com os olhos arregalados. — Não pode ser! Não está usando armadura! — A voz dele ganhou um tom histérico. — MAS ENTÃO O QUE É VOCÊ? E POR QUE CARREGA ESSA ARMA?!
Ela girou a lança no ar, com leveza quase insolente.
— Minha arma? — Havia uma ponta de escárnio em sua voz. — Ganhei de presente. Por quê? Nunca ganhou um?
Os olhos da criatura pulsaram como se estivessem prestes a saltar.
— Maldita... vou... cortar você...
O ar ficou mais pesado. Damian sentiu a urgência subir pelas pernas.
— Precisa sair daqui — disse ela, sem olhar para trás. — Corre e se esconde!
— Vou matar... arrancar... todos os seus membros... um por um... — sibilava o híbrido, como se degustasse cada palavra.
— AGORA! Vai!
— Mas... e você?! — Damian berrou ao ficar de pé.
No mesmo instante, o olhar do híbrido clareou. Como se enxergasse finalmente. A primeira gota de chuva caiu — depois outra. E Dante ainda não tinha saído do lugar.
— Já sei por onde vou começar... — pronunciou o monstro, faminto.
Partiu em disparada na direção de Damian. A garçonete reagiu no mesmo segundo, antecipando o movimento. Avançou como uma flecha, puxando Damian pelo casaco. O golpe do inimigo falhou por um fio.
Damian cambaleou. O mundo ainda girava. Então, tudo se embaralhou. O híbrido atacava sem trégua, tentando alcançá-lo.
A garota respondia a cada investida, bloqueando, aparando, recuando. Mas ele era persistente — e cruel. Conseguiu agarrar Damian pelo torso, como quem segura um coelho pelas orelhas.
O garoto se debateu com desespero, atrapalhando a manobra da criatura.
— Me larga! — gritou Damian em desespero.
Agindo com rapidez, a garota avançou. A lâmina rasgou o braço grotesco, libertando Damian. Ela o puxou junto de si, afastando-se o quanto podia. A raiva da criatura então transbordou. Os olhos amarelos do híbrido queimavam.
— CHEGA! — bradou, cuspindo a palavra no ar..
Mas não foi só um grito. Foi um ataque. O solo tremeu. Uma fenda fina se abriu sob seus pés.
Uma rajada obscura explodiu do chão, varrendo os dois como folhas secas.
Garçonete e Damian foram arremessados, juntos, contra a vegetação.
Sumiram bosque adentro, engolidos pelas sombras.
Capítulo 4 - Machado contra lança
A garçonete se levantou primeiro. Tinha arranhões nos braços, o uniforme rasgado, o cabelo solto. Passou as costas da mão pela boca — sentiu o gosto metálico do sangue. Depois olhou ao redor e encontrou o garoto ainda no chão.
— Ei. Você está bem?
Damian tentou se erguer. Ficou de joelhos. Ofegava. Estava todo amassado, trêmulo.
— Não... não estou. Eu... — engoliu em seco. — Mas que merda! Por que isso está acontecendo comigo? Por que aquela coisa quer me matar?! Meu irmão... você...
A jovem o observou em silêncio, os olhos afiados percorrendo cada detalhe. Depois se aproximou, agachando-se diante dele.
— Antes de tudo, precisa se acalmar. Tenta respirar um pouco.
— Mas...
— Só respira — repetiu com firmeza. — Olha ao redor. O que está acontecendo agora?
Damian hesitou. Ela apontou com o queixo para o pescoço dele. Damian baixou o olhar — e viu a marca. Uma mão impressa a fogo na pele.
— O que... o que é isso?
— Significa que ele marcou você. Não importa onde vá, ele vai te encontrar. Tsk... ele precisa morrer. — Falou como se dissesse que o tempo ia mudar. Damian congelou. — Isso não teria acontecido se você tivesse corrido quando eu disse.
— E o que queria que eu fizesse?! Eu nem consigo pensar direito.
— Pois trate de começar. Sua vida depende disso. Ficar no chão se lamentando não ajudou ninguém. — A voz dela cortou seco, mas logo suavizou. — Por enquanto, calma. Ele não vai matar você. Não vou deixar.
Damian a fitou. O medo ainda em brasa.
— Vai enfrentar ele... sozinha? Aquele monstro matou dois homens agora há pouco. Um machado atravessou os dois como... como papel. Eles nem tiveram chance...
— Eu vi. — O rosto dela endureceu. Mas havia dor no fundo. — Posso enfrentá-lo. Só estou em desvantagem, mas é algo que consigo reverter em pouco tempo.
一 Garçonete, está se ouvindo? — Damian indagou, incrédulo.
A garota, por fim, levantou-se com um brilho esperançoso no olhar.
Os dois ouviram a voz do híbrido aproximando-se de onde estavam. A chuva, que antes apenas ameaçava cair, agora desabava com força.
一 Há uma coisa que sei sobre os Halvinas — os seres híbridos. Precisam de tempo para se regenerar. É trabalhoso matá-los, mas não é impossível. Fique atrás de mim, certo? Tente permanecer fora da visão dele.
一 Isso não vai funcionar. Nós vamos morrer. — Damian moveu os lábios, desesperado.
O híbrido vinha cantarolando por entre as árvores. A garçonete retirou o colete do uniforme e o jogou no chão encharcado.
一 Esse é seu jeito de torcer por mim?
一 E há algo que eu possa fazer?
一 Apenas espere. Enxergue o momento e ache uma abertura. Preciso pegá-lo desprevenido.
Damian recuou, usando a penumbra como esconderijo. Não sabia dizer se a chuva ajudava ou atrapalhava.
Observou quando a garota adaptou sua única lança, segurando-a agora com ambas as mãos.
Ela a partiu ao meio?
一 Não adianta tentar escondê-lo de mim! Sei muito bem onde ele está! — disse o híbrido, sua voz ecoando entre as árvores e se cravando na mente de Damian como uma lâmina.
一 Não estou tentando escondê-lo. Só quero que ele evite olhar para você. Sua aparência é assustadora.
一 Quem você pensa que é?!
A provocação surtiu efeito. A criatura rompeu as sombras em um ataque direto.
一 Não vai querer saber — disse firme, aguardando o inimigo que avançava.
O som das duas lâminas se chocando irritou os tímpanos de Damian. O híbrido atacava com fúria descontrolada, sem técnica nem direção. A garota, por sua vez, mais aceitava os golpes do que os evitava. A lança, agora dividida em duas, mostrava-se muito mais eficiente contra o machado do que antes.
Damian, ainda escondido entre as árvores, observava com espanto. Os movimentos da garçonete o impressionavam. Sustentava toda a pressão do híbrido, que, apesar de claramente mais forte, parecia ser contido por ela.
Mas havia algo estranho — algo fora do comum. Seu modo de se mover, a confiança silenciosa que exalava... tudo pendia para o lado da garota.
No entanto, o inimigo tinha um instinto assassino. Ele temia mais por ela do que por si próprio.
Damian mal piscou. O machado atravessou o torso da garota.. O golpe a desequilibrou — por um instante, ela se tornou vulnerável. O híbrido não hesitou: a acertou novamente.
A garota tentou aparar o ataque com uma das lanças, mas ainda assim recebeu um chute violento no estômago.
Damian apertou o tronco da árvore, tomado pela cena. Droga... e agora? O híbrido avançava, enquanto ela caía de joelhos no chão molhado.
Mas não foi o bastante para derrubá-la por completo. Mesmo ajoelhada, mesmo entre a lama e a chuva, ainda conseguiu segurar as machadas dele, cruzando as lâminas para contê-lo.
Ela arfava. A respiração parecia prestes a falhar — mas não falhou. Damian pensou que, se a garçonete tivesse algum plano, aquele seria o momento de executá-lo. Ou tudo estaria perdido.
Apenas espere, lembrou das palavras dela. Enxergue o momento.
Ao vê-la ser empurrada contra o chão, saiu da escuridão. Se algo acontecesse com ela — e parecia prestes a acontecer — não haveria mais saída.
Damian saiu da escuridão, rugindo contra o vento.
一 É a mim que você quer, não é?! O QUE ESTÁ ESPERANDO?!
A garçonete arregalou os olhos. O híbrido, por sua vez, pareceu gostar do desafio.
一 Só um segundo, já chego em você.
— Esper... — a garota vacilou.
Desabou inconsciente sobre a lama. O híbrido não usou o machado. Foi o punho fechado que caiu sobre ela, brutal e desnecessário.
Damian olhou para a garçonete no chão. Depois para a criatura caminhando em sua direção.
— Eu me pergunto... — Ergueu-o pelo pescoço com um só braço. Os pés de Damian se debatiam no ar.
— Qual será a reação dele quando souber que eu arranquei a cabeça do irmãozinho?
Os olhos de Damian se abriram.
— Meu irmão... ele está vivo?! — perguntou, entre respirações curtas.
— Que noite magnífica será hoje! — exclamou o híbrido.
O machado brilhou em sua outra mão. Apontou-o para a garganta de Damian. Contudo, o híbrido foi interrompido por um som cortante. Damian caiu no chão e ao lado dele, um antebraço partido. Uma uma poça de sangue verde se espalhou pela lama.
O híbrido olhava estático para o lado direito do corpo — agora sem braço.
— Vai! — A garçonete gritou.
A criatura rugiu, tomado pela fúria. Damian correu, temendo que o machado viesse em sua direção outra vez. Mas o inimigo era mais traiçoeiro do que parecia.
A corrente em seu cinto se soltou sozinha. Como uma cobra viva, voou em direção à perna de Damian. Ele mal reagiu. Sentiu o peso metálico no tornozelo — e caiu. A corrente se enroscou em sua perna.
Ainda no chão, a garçonete desviou por pouco do machado lançado pelo híbrido.
Ele não parou. Insano e astuto, correu até a metade da lança caída no barro — a mesma que lhe arrancara o braço. Quando tentou tocá-la, algo inesperado aconteceu. A lança o repudiou. A madeira queimou sua mão como fogo direto do inferno.
Ele recuou, atônito, os olhos arregalados.
— Uma jura de sangue?!
— Eu também tenho meus truques — respondeu a garçonete, sem tirar os olhos dele.
Ao fundo, Damian lutava contra a corrente viva. Ainda subia, engolindo sua perna como se quisesse absorvê-lo.
Essa não, pensou. Essa não...
Capítulo 5 - Não se trata de um sacrifício
O machado não voltou a tempo. A garota fincou a lança na terra molhada — uma barreira que interceptou a lâmina antes que ela alcançasse o dono.
— Não, sua maldita! — vociferou o híbrido, avançando mesmo sem o braço.
A jovem girou com a lança — uma dança afiada que fechou o espaço ao redor da criatura. Não hesitou. Nos segundos seguintes, cortou qualquer chance de defesa e derrubou o híbrido de costas na lama, onde ele ficou arfando.
— Solte-o! Chame a corrente! — gritou, com a lança pressionando o pescoço do inimigo.
— Acha mesmo que pode fazer alguma coisa?! — retrucou ele, raivoso.
Por instinto, a garçonete partiu a lança ao meio.
— Estou sumindo! — A voz de Damian saiu agoniada.
— Pegue! — ordenou, arremessando metade da lança em direção ao garoto.
A arma atravessou a barreira e cravou o chão ao lado de Damian.
Ele se arrastou até a arma e a tomou com esforço, sentindo o peso específico daquela metade.
Sem muito mais a fazer, golpeou a corrente.
Faíscas explodiram. As argolas recuaram como ratos acuados.
O híbrido tentou se levantar — a ponta da lança já estava em seu peito. A atenção dele se voltou inteiramente para ela.
— Por que um Halvina como você está aqui?! O que quer com ele?
— Vai pagar por isso... vou dilacerar você, maldita! — rosnou, entredentes.
Ela pressionou ainda mais a ponta afiada no peito dele.
— O que você quer aqui?
— Não pense que isso acabou. Você não pode me matar! Não é ninguém... não é um deles!
Sem aviso, o híbrido mordeu a própria língua.
O corpo começou a apodrecer de dentro para fora. A garçonete não se moveu — ficou de olhos abertos enquanto ele se dissolvia diante dela.
O que restou do corpo virou pó — e a chuva levou. A ponta da lança desceu até a terra. Já não havia alvo.
— É... eu não sou — murmurou, como resposta a ninguém.
Damian se levantou do chão mancando.
— O que aconteceu? Você o matou?
— Não.
— Não? Para onde ele foi, então?! — perguntou, aturdido, aproximando-se.
— Sacrificou o próprio corpo para se salvar. Deve estar se regenerando em algum canto. — A expressão de Damian fechou. — A culpa foi minha. Vacilei. Deixei o braço escapar.
— O quê? O braço?! Onde está? Estava aqui há agora pouco! — O garoto girou a cabeça em todas as direções, procurando o membro perdido.
— Eu falei, não falei? Híbridos são difíceis de matar porque podem se regenerar a partir de qualquer parte do corpo.
— Por que foi cortar o braço dele?!
Ela o encarou.
— Por que se deixou ser pego?
Damian piscou, confuso.
— E agora? O que vai acontecer?
A garota endireitou-se. Tomou a outra metade da lança e voltou a uni-las. Apoiou-se sobre a arma. Os dois se olharam em silêncio.
— Isso quer dizer que temos algumas horas de paz. Talvez até amanhã.
Damian apertou os olhos.
— Você só pode estar brincando comigo! — exclamou, passando a mão pelo rosto. — E se estiver errada? Talvez ele esteja morto.
Ela suspirou, transferindo o peso do corpo.
— Eu gostaria de poder dizer o mesmo... mas a marca ainda está no seu pescoço. E só vai desaparecer quando ele realmente estiver morto.
O rosto de Damian empalideceu. Apalpou a pele, sentindo o relevo de uma mão.
— Como sabe de tudo isso? — indagou, mas não houve resposta. — Okay, e o que fazemos até lá?
— Pode começar tentando entender por que isso está acontecendo com você — disse ela, já se afastando. Damian a seguiu. Sirenes ecoavam ao longe. — Preciso de um tempo antes de enfrentá-lo de novo.
— Você vai? — Ele a fitou de lado.
A garçonete virou-se devagar.
— Não há mais ninguém que possa fazer isso, certo? — murmurou, como se guardasse um segredo. Damian se prendeu nos olhos negros dela. — É melhor não querer saber por que estou ajudando você. Não me force a perceber que não ganho nada com isso. Que estou arriscando minha vida por um garoto que nem conheço... e que, inclusive, foi muito mal-educado quando nos conhecemos.
O rapaz engoliu seco.
— Desculpe por aquilo — disse baixo.
— Seu irmão pediu desculpas por você — concluiu ela. Voltaram a caminhar, lado a lado. — A propósito... quem exatamente é o seu irmão? Ele estava com a cabeça cheia de Energia Refulgente.
— Energia Refulgente? O que é isso? — perguntou, intrigado. Ela o lançou um olhar vago, como se Damian não merecesse a resposta.
— Sua pergunta só prova que realmente não sabe nadinha sobre a vida dele, não é?
Damian pisou forte na terra encharcada, passou a mão na nuca, perdido. O que eu deveria saber sobre o Elio? Nem sei se ele está bem. E tem algo a mais que quero saber, mas é sobre você.
— Eu não sei o seu nome — disse Damian.
A garota hesitou por um momento.
— É Autumn.
— Só Autumn?
— Sim. Só Autumn.
— Bem, eu me chamo...
— Dante, eu sei. Ouvi pelo seu irmão.
— Na verdade, é Damian. Damian Montgomery. Só meu irmão me chama de Dante.
Autumn ergueu as sobrancelhas.
— Tudo bem — balançou a cabeça, voltando a andar. — Você não vem, Dante?
O garoto piscou, acompanhando-a.
— É Damian — corrigiu-a. — Aonde estamos indo, afinal?
— Para minha casa.
— Por quê?
— Porque é para onde vou. E, se quiser proteção, terá que vir comigo.
Damian respirou fundo. Não havia escolha.
— É longe?
— Um pouco.
— Não tenho dinheiro para táxi.
— Muito menos eu, Dante.
Continua.





Eu amoooo esse começo. Já li várias vezes e mal posso esperar pelo resto (finalmente)