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Meu destino é um beco sem saída


Quanto mais perto do ofício que alegra meu coração, melhor.

Eu olho tão, tão alto que temo nunca alcançar.

Porque me falta a personalidade necessária, a força obsessiva e a coragem.  

E minha prosa vai perdendo força, beleza; vai perdendo a sensação de estar em contato com algo sagrado e transcendente.

Encontro em cada palavra, um alento. 

E estou o tempo todo fazendo promessas que não poderei cumprir,

pois sou demasiada pobre de mim. 

Quem a não ser eu mesma poderia dizer? Estou vazia.

Toda e qualquer força me falta. Acho que  prefiro estar só, cair sozinha.

Hoje estou sem alma para narrar o que quer que seja, sou apenas um ínfimo sonho, perdido,

boiando na escuridão de alguma água.

Sim, tenho definhado gradualmente, e não há leitura

ou amor que aplaque a dor de viver tão mal.

É crônico; não sei amar nem viver.

Não há dúvidas de que melhoro só em ouvir uma música, em segurar ingenuamente um livro.

Como se a música fosse um remédio sonoro, e o livro algum amuleto

restaurador da força moral e sonhadora.

Aos poucos, eu sei, vou sendo quem sou; mas a lentidão me chateia.

Haveria algum modo de escapar? Eu, pecadora que sou, perdi tanto tempo.

Conceder-me este presente não seria justo.

Tenho tão cruamente o hoje, que nada, nenhum plano futuro ou nostalgia

deveria perturbar minha alma sanguínea. 

Não há dúvidas de que minha solidão existe, e eu a aprecio,

mas não consigo completar nada, nenhuma literatura que ameaça, aqui, dentro de mim.

Escrevo à força, contra minha vontade.

Estou triste, desanimada, inquieta; preciso estender o meu contato,

meu conhecimento, a intimidade que fomenta meu talento, minha personalidade. 

TUDO EM MIM GRITA POR EXPANSÃO, mas não respondo à altura.

Meus empenhos e obstinações revelaram-se nulas.

Leio pouco; sonho acordada com tudo que posso, mas não realizo.

O que me cerca me exige uma força que não há, nunca houve.

Não sou capaz de cultivá-la. 

Mas todo esse “reclame” de minha alma já me cansa.

Sim, quanto mais perto do ofício que alegra meu coração, melhor,

mas se só isso é minha salvação diária, meu alento mais precioso, então significa dizer

que tenho andado descalça no inferno; porque nem sempre o tempo é amizade. 

Não que tudo tenha me levado a isso, mas é isso que acredito

nas últimas semanas: meu destino é um beco sem saída.


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