Meu destino é um beco sem saída
- Jamile Castro Félix

- há 6 horas
- 2 min de leitura

Quanto mais perto do ofício que alegra meu coração, melhor.
Eu olho tão, tão alto que temo nunca alcançar.
Porque me falta a personalidade necessária, a força obsessiva e a coragem.
E minha prosa vai perdendo força, beleza; vai perdendo a sensação de estar em contato com algo sagrado e transcendente.
Encontro em cada palavra, um alento.
E estou o tempo todo fazendo promessas que não poderei cumprir,
pois sou demasiada pobre de mim.
Quem a não ser eu mesma poderia dizer? Estou vazia.
Toda e qualquer força me falta. Acho que prefiro estar só, cair sozinha.
Hoje estou sem alma para narrar o que quer que seja, sou apenas um ínfimo sonho, perdido,
boiando na escuridão de alguma água.
Sim, tenho definhado gradualmente, e não há leitura
ou amor que aplaque a dor de viver tão mal.
É crônico; não sei amar nem viver.
Não há dúvidas de que melhoro só em ouvir uma música, em segurar ingenuamente um livro.
Como se a música fosse um remédio sonoro, e o livro algum amuleto
restaurador da força moral e sonhadora.
Aos poucos, eu sei, vou sendo quem sou; mas a lentidão me chateia.
Haveria algum modo de escapar? Eu, pecadora que sou, perdi tanto tempo.
Conceder-me este presente não seria justo.
Tenho tão cruamente o hoje, que nada, nenhum plano futuro ou nostalgia
deveria perturbar minha alma sanguínea.
Não há dúvidas de que minha solidão existe, e eu a aprecio,
mas não consigo completar nada, nenhuma literatura que ameaça, aqui, dentro de mim.
Escrevo à força, contra minha vontade.
Estou triste, desanimada, inquieta; preciso estender o meu contato,
meu conhecimento, a intimidade que fomenta meu talento, minha personalidade.
TUDO EM MIM GRITA POR EXPANSÃO, mas não respondo à altura.
Meus empenhos e obstinações revelaram-se nulas.
Leio pouco; sonho acordada com tudo que posso, mas não realizo.
O que me cerca me exige uma força que não há, nunca houve.
Não sou capaz de cultivá-la.
Mas todo esse “reclame” de minha alma já me cansa.
Sim, quanto mais perto do ofício que alegra meu coração, melhor,
mas se só isso é minha salvação diária, meu alento mais precioso, então significa dizer
que tenho andado descalça no inferno; porque nem sempre o tempo é amizade.
Não que tudo tenha me levado a isso, mas é isso que acredito
nas últimas semanas: meu destino é um beco sem saída.





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