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Eu não sei muito bem quem sou, mas sei quem não sou.

Existe uma pergunta que nenhum escritor faz em voz alta, mas que mora em algum lugar entre o segundo e o terceiro parágrafo de qualquer texto que a gente começa: isso é bom o suficiente? 

E logo atrás dela, quase sem ser convidada, vem a outra: eu sou bom o suficiente?

Aprendi a não responder nenhuma das duas de imediato.



O que aprendi — e foi um aprendizado lento, feito de rascunhos não usados e de noites em que eu relia o mesmo trecho até ele perder o sentido — é que há coisas que eu sei sobre mim enquanto escritora.

Não com certeza, não com orgulho declarado.

Mas sei.

E curiosamente, boa parte do que sei começa pelo avesso: eu sei quem eu não sou.


Não sou a escritora que entrega o primeiro rascunho como versão final. Isso não é disciplina — é desconforto genuíno com o que ainda não ficou certo.

Quantas vezes editei meu primeiro livro? Acho que perdi a conta.

Quando uma frase soa falsa, algo me incomoda antes mesmo de eu conseguir nomear o problema. Essa percepção — de que alguma coisa não funciona, mesmo sem saber ainda o quê — é o sinal mais honesto de que você se importa com o que está fazendo.


Ah, vale ressaltar: importar-se não é o mesmo que gostar sempre.



Há dias em que eu abro o documento e sinto uma resistência que parece física.

Mas abro assim mesmo. Escrevo mesmo quando o que sai é ruim, porque sei que o texto ruim de hoje é o material do texto melhor de amanhã.

E mesmo quando não escrevo, fico relendo o que escrevi.

Fico torturando minha consciência.

É que escritor que espera inspiração para começar geralmente não termina. E terminar — mesmo o rascunho imperfeito, mesmo o conto que ainda não tem a cena certa no meio — terminar já é uma forma de respeito, certo? Respeito pelo próprio trabalho.



Meus personagens me ensinam isso com mais clareza do que qualquer técnica.

Quando começo a me perguntar o que uma personagem não faria em determinada situação, quando a escolha dela me surpreende antes de surpreender o leitor, sei que ela ganhou peso próprio. Isso não acontece sem atenção.

Essa atenção não é opcional — ela é o ofício inteiro, disfarçado de detalhe.

Palavra por palavra.

Tom. Ritmo.

A diferença entre a vírgula que faz o leitor respirar e a vírgula que o faz tropeçar. Tantas e tantas camadas.



Há também o feedback, que aprendi a receber sem tratar como veredicto.

Nem todo comentário é certeiro, mas a recusa total ao olhar externo é uma forma de medo. E o medo, na escrita, tem um custo alto: ele imobiliza exatamente onde você mais precisaria avançar.


O que me mantém é algo mais simples do que eu gostaria de admitir.


Eu continuo mesmo quando pareço ter desistido. Mesmo quando a história está torta, mesmo quando não sei onde ela vai, mesmo quando a insegurança senta ao lado e fica.


Continuar não é coragem dramática, nem sei se isso existe... é só colocar as mãos no trabalho de novo no dia seguinte.


E existe uma voz. Ainda em construção, ainda descobrindo seus próprios limites — mas é minha. Reconheço ela quando apareço numa frase sem me esforçar para parecer outra pessoa.


Talvez seja isso.


Talvez ser um bom escritor não seja saber tudo sobre si próprio, mas reconhecer, aos poucos, o que já está lá. Antes mesmo de ter nome para isso.



1 comentário


Ana Félix
Ana Félix
13 de abr.

Faz parte, mas seguimos, não é? O processo é difícil, mas o que seria dos escritores sem as provações que a escrita carrega? Faz parte de quem nós somos, e ainda assim, é uma parte difícil de enxergar. Uma reflexão muito interessante.

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