Como tornar sua escrita mais criativa (pode não funcionar o tempo todo)
- Jamile Castro Félix

- 14 de abr.
- 3 min de leitura
Se você já releu um trecho do que escreveu e sentiu que algo estava apagado, sem vida, pode provavelmente estar lidando com um problema muito comum: atalhos de linguagem.

Verbos genéricos como fazer, ir, colocar.
Adjetivos básicos como vermelho, feio, grande.
O uso de descrições que cumprem a função de existir, mas não fazem mais do que isso.
Eles resolvem o problema imediato. A frase está lá e faz a cena avançar — mas não dão à escrita o peso que ela poderia ter.
A boa notícia é que isso tem solução. Na maioria das vezes.
E a menos boa é que exige um esforço consciente, especialmente no primeiro rascunho, quando a tendência natural é só colocar as palavras para fora.
O primeiro passo: trocar verbos genéricos por verbos com intenção
O verbo é onde a ação mora. Quando ele é vago, a ação também fica vaga.

Vamos comparar:
Ele correu para alcançá-la.
Ele se lançou para agarrá-la.
Ele avançou para capturá-la.
As três frases comunicam a mesma coisa — um homem em movimento em direção a alguém.
Mas lançou carrega urgência e desespero.
Avançou tem determinação, quase frieza.
Correu não carrega nada além do movimento em si.
A pergunta que você precisa fazer ao revisar é: o que esse personagem está sentindo nesse momento? O verbo está refletindo isso?
O segundo passo: ir além do sinônimo
O caminho mais fácil quando percebemos que um verbo está fraco é abrir o dicionário de sinônimos. Isso ajuda, mas tem um limite.

O sinônimo ainda pensa dentro da mesma estrutura da frase original.
Às vezes o que precisa mudar não é só a palavra, mas o ângulo inteiro da frase.
Cheirava a corpos em decomposição. > Seu cheiro azedava com os vestígios da morte. >
O ar azedava com os vestígios da morte.
A primeira frase informa.
As outras duas colocam o leitor dentro da experiência — uma através de quem sente, outra através do ambiente.
São escolhas diferentes que criam efeitos diferentes. O sinônimo não teria chegado lá.
O terceiro passo: descrever sem ser plano
É na descrição onde a maioria dos escritores perde uma certa energia.

Cabelo, olhos, quartos, paredes — esses elementos costumam aparecer de forma funcional demais, como se o narrador estivesse preenchendo um formulário.
O quarto era extremamente vermelho.
Funciona. Mas não faz nada além de registrar a cor.
O quarto me afogava em um vermelho carmim. Cada superfície imaginável sangrava diante dos meus olhos.
Agora a descrição tem uma reação emocional embutida. O leitor não só enxerga o quarto na cena, mas também pode sentir o que é estar dentro dele.
Isso não significa que toda descrição precisa ser elaborada. Significa que, quando algo tem importância para a cena ou para o personagem, a linguagem deveria comunicar isso.
Uma ressalva importante

Reescrever cada frase assim pode facilmente se tornar uma forma de inflar o número de palavras sem dizer nada de novo. O objetivo não é complicar o que é simples — é reconhecer quando a escrita ficou rasa por comodidade, e não por escolha.
A diferença entre os dois está na consciência do escritor. Quando você decide que uma frase deve ser direta, isso é uma escolha.
Quando você usa fez, foi e tinha em todo parágrafo porque é mais rápido, isso é um atalho.
Revisar com esse olhar é o que separa o primeiro rascunho do texto que você realmente queria ter escrito.








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