A árvore que não se deve cortar
- Jamile Castro Félix

- 15 de abr.
- 2 min de leitura
Existe uma matéria-prima cuja única forma de assegurar a existência é gastá-la sem conta. Quanto mais se usa, mais se tem.
Parece contradição — e seria, se não fosse a coisa mais concreta que um escritor pode carregar consigo.
Criatividade.

Não no sentido vago que a palavra foi ganhando com o tempo — aquele território misterioso que pertenceria a alguns eleitos, quase inacessível para os demais. Mas no sentido operacional: a habilidade de criar associações, de enxergar conexões entre coisas que ainda não se tocaram, de resolver um problema com uma ideia que ainda não existia.
Essa habilidade se comporta como músculo.
Atrofia no descanso, cresce no uso. Mas há uma diferença entre músculo e criatividade que vale entender: o músculo pede forma, limite, direção.
A criatividade pede o contrário. Pense numa árvore.
Árvores são podadas por dois motivos: saúde e estética. Galhos que crescem para o lugar errado, que tomam espaço demais, que quebram a simetria — são cortados. É uma intervenção razoável no jardim.
É o pior erro possível quando se trata de criar.
A tentação de podar é real. Aparece no meio de uma frase quando a voz interna diz isso não faz sentido. Aparece antes de começar, quando o julgamento chega antes da ideia. Aparece depois, quando relemos o que escrevemos e decidimos que não era bom o suficiente antes de terminar de escrever.
O galho que parece desgarrado hoje pode ser o que sustenta tudo amanhã.
Clarice Lispector escrevia sem saber onde estava indo — e dizia isso sem desconforto. Havia nela uma confiança no caos do processo que desconcertava quem tentava entender a obra antes de ela estar pronta. O caos não era falha. Era o método.
A criatividade floresce exatamente onde não foi contida. É no galhos livres que as ideias encontram direção própria, associam o que não deveria se associar, produzem o que não poderia ser planejado.
Podar antes de crescer é o único erro irreversível nesse processo.
Deixe a árvore crescer torta. Volte depois, se precisar — mas só depois, quando ela já tiver forma suficiente para você entender o que estava fazendo.
A poda prematura não protege a criatividade. Ela a ensina a não aparecer.








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