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Solitude

delaunay, jules-elie - ahpo embrassant sa lyre.jpg

Expressão tardia

Tudo que os outros fazem com graça é eternamente inacessível à minha arte.
Cada palavra proferida, suspiro ou arranjo,

torna-se mais belo, mais distante do que minha insignificância.
Todas as emoções que flutuam como plumas ao vento

são como miragens inalcançáveis.
Não importa o quanto eu me esforce, sou apenas

um eco do que sonhou para mim.
Jamais serei digna de tua visão.
Jamais atingirei o pico.
Nenhum trabalho de minhas mãos conseguirá comover-te.
Não consigo escrever somente.
Não posso apenas falar.
Mostrar não é minha especialidade.
Nenhuma narrativa que minha mente

conceba tocará teu coração.
Desgosta-te do que escrevo.
Desapreço de como digo. 
Nada do que sou encontra teu agrado.
Meu mundo, minha visão, minha escrita,

são simples rascunhos em teu olhar implacável.
Não possuo preciosidades.
Sou desprovida e ressequida,

minha essência se dissolve.
O vazio paira sobre tudo.
E sobra apenas uma cadeira,

ocupada por tua ausência.
Nenhum consolo desce na forma de lágrimas.
Minha arte é relegada ao fundo da fila.
Minha arte é vulgar.
Parágrafos após parágrafos, sou eu, minha única espectadora. 
Não há prólogo, não há beleza.
No epílogo desta narrativa, minha existência

não está lá para testemunhar.
Essas emoções tardias, dons inatingíveis,

residem apenas na expressão artística de minha melancolia.

Gloriosa noite

De onde emerge aquela figura imponente,
Alta, como esculpida à mão divina...
Talvez eu esteja ligeiramente inebriada,
Recolhida em minha cama, a pensar
apenas tentando decifrar
a origem deste vazio que me envolve

Pode parecer insuficiente, mas é o que tenho.

Assim, na noite, rogo por um anjo que me proteja,
anseio por tesouros que possam me encher de orgulho.
Queria ter fortuna para comprar afeto,
Possuir uma casa ao lado e toda manhã,
contemplar e desejar nada mais

Quando me sinto necessitada

quando desejo carinho e atenção,
Olho para a chama da vela,
Dança dela, hipnotizante
A fumaça me ilude
Mas agora, talvez, eu não me preocupe

Então, na noite, imploro por um anjo que me guarde,
Clamo por tesouros para me orgulhar,
possuir riquezas suficientes para conquistar o amor,
Uma casa próxima à tua,
então, a cada manhã
Te ver e nada mais almejar.

draper, herbert james - The Kelpie.jpg
cabanel, alexandre - Ophelia.jpg

O Vazio

Mas ela não entendia o porquê tinha que dormir... 
Se todos os universos pudessem existir em um só, desejava conhecer todos eles. 

Só que havia mais de uma xícara, mais de uma presença, mais de uma visita. 
Apenas uma porta entreaberta.
E além dela, a natureza se desenrolava em sua vida. 
Enquanto corria no frio, os dedos dormentes ficavam. 
No entanto, o sorriso no rosto era mais efetivo do que a dor não vista. Era o cabelo ficando para trás, assim como todos os outros e aquela casa no meio da rua. 
Era a pessoa ao seu lado, segurando sua mão, correndo junto para não deixá-la cair.
Era o cheiro de liberdade no ar, 

a espinhosa sensação da eternidade. 
Não uma esquife, não uma missa, 
não uma prece. 
Apenas a vista sem fim, ânimo sem fim, doçura sem fim, felicidade sem fim. 
E ninguém mais para dizer o vazio.

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